03/02/2026

Mulheres autistas e sua complexa sexualidade

  Oi, eu sou a Stef! 

 Eu sei, vocês devem estar se perguntando o motivo de eu ter voltado a postar... Pois bem, o motivo é bastante especial: Voltarei a fazer posts complementares para meus vídeos. E nesse teremos a participação especial da Monica Maria (@autorasombria) ♡
 E vamos ao assunto principal: O que faz com que a sexualidade de mulheres autistas seja tão diferente da de mulheres que não são autistas?

 Eu cresci notando que as minhas experiências em relação a autoconhecimento e sexualidade sempre foram muito diferentes das de outras garotas da minha idade. Quando eu era adolescente eu ainda não tinha sido diagnosticada como autista, portanto eu achava que só era "esquisita".
  Todas as minhas colegas começaram a ter suas próprias experiências e elas se expressavam visualmente de uma forma mais feminina que eu. Nesse período, eu sentia que não era merecedora do mesmo tipo de expressão, e para ser sincera, eu não me via como mulher, nem mesmo como um ser humano! 
  Era como se não existisse um lugar para mim.

 O processo de autoconhecimento só veio de verdade depois que eu me entendi como autista e trabalhei muito em amar a mim mesma. Foi algo demorado e diria que é um trabalho constante, mas posso dizer que atualmente me vejo de forma humana.
  Uma das coisas que mais me ajudou, além das que mencionei, foi consumir mídias que me fizessem me sentir menos sozinha. É por isso que eu AMO cinema sobre mulheres/garotas estranhas. 
  Irei abordar esse assunto com mais detalhes no meu vídeo. Assim que ele sair, haverá um link aqui.
  Agora fiquem com a entrevista e o relato da Monica, onde ela explica com muita profundidade as experiências dela em torno deste tema :)
1 - O que te ajudou a se expressar e entender melhor sobre si mesma e sobre sexualidade?

  Levei a vida toda para ter coragem de usar minha voz. Durante a sexta e a sétima série sofria muito bullying na escola. Até meus 30 anos usava somente camisetas largas e calças, desprezava sexo, maquiagem e tudo relacionado a sexualidade e ao feminino. Essa postura defensiva se tornou uma muralha de proteção, se eu desprezasse esses assuntos, nunca teria que lidar com a enorme ferida na minha autoestima como mulher, o quanto me achava feia, magra demais, estranha e inferior. Além disso, também tive a infelicidade de sofrer assédio e abuso por parte de homens durante a adolescência e na época dos 20 anos. O tabu em relação a saúde mental naquele tempo era maior do que sobre sexo, então achava que meus sintomas de depressão e ansiedade eram bobeira. Isso acumulou tanto peso sobre minha autoestima que me afundei. 

  Eu me culpava pelo que sofri, me via como suja e promíscua porque tinha aceitado sair com aqueles homens. Nunca pensei que a culpa seria deles. Não tinha com quem conversar abertamente, todas as minhas amigas sofriam, ou tinham sofrido, o mesmo e também tinham vergonha das próprias atitudes em vez de enxergar a situação como abuso. Consumia histórias sobre sexo em segredo, como se fosse um pecado. Quando tive a chance de ter atendimento psicológico, o cenário mudou. Graças a terapia, e criadoras de conteúdo que falavam sobre o tema, superei aos poucos. Eu não estava mais sozinha. As mulheres ganharam cada vez mais espaço na internet e na mídia, por isso admiro tanto seu trabalho, Stef. Mulheres como você fazem uma grande diferença na vida de muitas de nós. 

  Quando completei 30 anos, uma chave virou. Foi como se a espiritualidade tivesse aberto um terceiro olho que me permitiu enxergar tudo com clareza. Criei coragem para me ver como mulher e não como uma menina. Levou um tempo para que essa mudança ocorresse. No começo, me expressava somente na aparência. Comprei roupas que tinha vontade, como lingeries e camisolas, mudei o cabelo e aprendi maquiagem. Esse foi o primeiro degrau da caminhada. 

  Quando postei a primeira foto sensual no Instagram, estava só experimentando uma camisola. Não tinha nenhuma intenção clara, mas acabou sendo o post mais curtido. Na época alcancei quase 500 curtidas. O problema foi que minha autoestima cresceu a partir de validação alheia. Na época eu postava ensaios para chamar a atenção de uma mulher com quem estava saindo. Sofria demais com crises de ansiedade por insegurança apesar das fotos serem ótimas. Depois disso entrei na neura de postar sempre para alimentar o ego de validação. O que piorou quando comecei a me relacionar com um homem que me usou. Tive inúmeras crises por conta disso, mas dessa vez recebi ajuda. Já estava praticando meu culto a Exu e Pombagira, então criei coragem para sair daquela situação. 

  Sai com outros homens após isso e, apesar de alguns serem babacas, foram importantes para meu crescimento, pois foi quando parei de aceitar pouco, de me calar e de buscar validação. Ao enfrentar esses homens, recuperei minha voz. Dizer não mudou minha vida. 

  Parei de postar as fotos por um bom tempo. Me retirei para dentro de mim e resgatei meu valor como mulher. Não foi fácil, mas eu estava tão determinada e cansada de injustiças que nada me parou. Eu acho que as mulheres descobrem sua autoestima quando se cansam e se rebelam contra as injustiças que sofreram do patriarcado. Isso é extremamente poderoso. 

  Quando conheci meu namorado, que também é autista, recebi amor, carinho e respeito genuíno. Saber que posso ser amada sem filtros e maquiagem foi um ponto crucial para eu parar de me ver como a mulher das fotos sensuais e passar a me ver como uma mulher inteira. Eu busquei pela autoestima nos olhos quando ela vem de um lugar profundo da nossa alma. 

  A sexualidade veio naturalmente quando me libertei de expectativas masculinas e de tudo que os homens me disseram e me fizeram acreditar. Uma vida sexual saudável é essencial para isso. Com meu namorado pude explorar com segurança, respeito e liberdade. Quanto mais tive isso, mais fui descobrindo essa camada gigante da sexualidade que estava adormecida. Quebrei o bloqueio com a minha escrita, troquei o gênero do terror por romance sombrio. Quebrei também padrões de pensamentos negativos, medo de julgamento e da sociedade. A partir do momento que pude dizer em voz alta “eu gosto de sexo” tudo se encaixou. Eu tomei meu lugar, meu trono como rainha do meu próprio corpo e da minha mente. A sensualidade está em mim quando visto pijamas ou lingeries, quando acordo descabelada ou quando uso penteado. 

  Hoje a sexualidade é tão amada por mim que consigo me expressar a respeito através de fotos, histórias, poemas e moda. Quando escrevo ou posto, quero inspirar outras mulheres a fazerem o mesmo, quero estender a mão para aquelas que estão presas no mesmo cativeiro que estive e mostrar que ser dona de si mesma é nosso maior poder. 

  Também acho importante falar sobre isso para que meninas, principalmente adolescentes, saibam se estão sofrendo abuso e que não precisam aceitar nada em silêncio. Para mim, a expressão da sexualidade vem com um sentido além do visual, é sobre a tomada do direito feminino ao próprio prazer e bem-estar, algo que nos é negado desde a infância. A sexualidade feminina é um grande ato político sobre saúde física e mental, liberdade e direitos. 
Assim como a maioria das mulheres com TEA, passei a vida sofrendo uma infantilização por parte de homens e adultos. Hoje eu paro para pensar nisso e me dá asco. Os homens me chamavam de fofa, meiga, delicadinha, cara de novinha enquanto davam em cima de mim. Isso vinha somente de caras maiores de idade, o que piorava a situação. Vou compartilhar um momento de assédio que sofri na Bienal do Livro relacionado a isso. Eu estava com meu amigo na área de quadrinhos independentes e um autor dessas HQ’s me abordou, perguntou se meu amigo era meu namorado e ele negou. Depois disse o seguinte: “nossa, você tem cara de novinha. Se eu te visse em uma balada, ia ficar com medo de chegar em você por achar que você seria menor de idade”. Fiquei indignada com isso. Ele deixou evidente que tinha atração por meninas novas, inclusive, recuou quando falei que tinha 31 anos. 

  Por eu ser introvertida, franzina e ter rosto “babyface” achei que nunca poderia ser uma mulher gostosa, muito menos poderosa. Essa crença foi quebrada quando parei de interagir com homens cis heteros e me cerquei apenas de mulheres e rapazes LGBT (meu namorado é panssexual). O acolhimento feminino foi muito importante também, não é uma validação, é uma comunidade. Quando recebo elogio de uma mulher, sei que foi verdadeiro e não só porque ela tem alguma intenção maliciosa. Ter um olhar atento às pessoas que te cercam faz parte da autoestima, por isso se afastar de quem inibe sua sexualidade, ou te vê apenas de forma sexual, é fundamental. 

  Nossa sexualidade é para agradar a nós mesmas. Nosso prazer deve ser priorizado pela gente. Esse é o pensamento que mantenho agora. 


2 - Qual conselho você daria para mulheres neurodivergentes?

  Não sejam mulheres passivas. Nós, neurodivergentes, somos ainda mais vulneráveis aos homens predadores. Não aceite o que esteja te incomodando, mesmo que seja um tom de voz ou uma piada. Se o toque físico, seja sexual ou um beijo, estiver desconfortável, se afaste. Pode parecer óbvio, mas muitas de nós ainda ficamos em silêncio diante disso por achar que estamos exagerando ou sendo chatas. 

  A sexualidade fala através de várias formas. Não tenham medo de se expressar sobre isso de um modo diferente do convencional. Quanto mais fiel a si mesma você for, mais prazer irá sentir. O sexo é uma forma de amor, paixão e conexão humana. Não tem nada de errado nele. 

  Invista na sua segurança e no seu conforto em primeiro lugar, procure uma ginecologista, tire suas dúvidas, conheça seu corpo e seus limites. Busque por terapia para conversar sobre isso, entender suas inseguranças, medos e traumas. A cura da nossa sexualidade é nosso primeiro passo para a liberdade. Não divida esse momento com quem te oferece pouca atenção e carinho. Seja exigente, seu corpo é seu reino e você só deve permitir entrar quem te tratar como uma rainha. 

  Fale sobre isso com suas amigas, sua mãe ou com mulheres de confiança. Não precisa guardar tudo sozinha, compartilhar suas experiências e dúvidas vai te trazer ainda mais conhecimento e alívio, além de quebrar a barreira criada pelos tabus da sociedade. Você passa a enxergar o sexo como algo comum, parte da rotina de qualquer ser humano. 

  Não foque apenas no visual. Encontre a si mesma e depois a expressão pela arte e pela moda vem naturalmente. Nunca busque validação, esse é o caminho mais rápido para crises de ansiedade. Você pode expressar sua sexualidade sozinha no quarto ou no Instagram, o importante é que isso seja sua voz para o mundo e não uma ânsia por ser vista. 


3 - Você tem alguma recomendação de mídia que te ajudou? (Livros, filmes, qualquer formato)

  Minha maior inspiração é a Madonna. Ela foi uma das pioneiras a reclamar o direito feminino à sexualidade, erguendo a voz em pleno anos 80/90, ensinou sobre segurança e saúde sexual e deu voz às mulheres. Minha mãe foi uma grande fã dela e me criou ouvindo as músicas e vendo os vídeos. 

  O que me ajudou também foram filmes e livros feitos por mulheres. Parar de consumir filmes e livros sobre sexualidade feito por homens mudou minha vida. O mesmo vale para a música. Passei a escutar muito mais vozes femininas como Lady Gaga, Taylor Momsen e Sabrina Carpenter. Acho que muitas mulheres aqui vão amar a Taylor Momsen, ela é uma das maiores representatividade de poder sexual feminino no cenário do rock. 

  Vou deixar aqui dicas de filmes, livros e séries feitos por mulheres que me ajudaram demais nessa descoberta. 

Fleabag (série)
Nessa série acompanhamos uma mulher adulta que gosta de sexo e de se relacionar com vários parceiros. Ela é vista como inconsequente e louca por conta desse comportamento livre enquanto os homens que agem da mesma maneira nunca sofrem julgamento. 

Garota Exemplar (livro)
Esse é meu livro favorito da vida. A personagem Amy faz discursos incríveis sobre patriarcado, liberdade feminina e o lado sombrio da mulher. 

Bound (filme)
Filme sáfico com cenas quentes maravilhosas. Tem um enredo muito poderoso também, um dos melhores que assisti. 

Saint Maud (filme)
Esse fala sobre repressão sexual religiosa. Maud é uma mulher reprimida pelo catolicismo que deseja expressar sua sexualidade, mas carrega a culpa do pecado. É bem mais sombrio, mas muito bom. 

Thelma (filme)
Esse é um dos filmes sáficos mais lindos sobre o despertar da sexualidade feminina. Ele vem com várias metáforas. 

Babygirl (filme)
Lançou recentemente e conta sobre uma mulher mais velha infeliz com a vida sexual, então ela começa a praticar BDSM escondida. É um filme mais dramático e intenso, mas bem visceral. 

Lisa Frankenstein (filme)
Esse é bem divertido e leve em comparação aos outros. A protagonista é uma adolescente gótica que está na fase de despertar da sexualidade. Ela se apaixona por um cadáver revivido, como o monstro de Frankenstein. Não tem cenas explícitas, apesar do contexto sexual. 

  Recomendo também livros de dark romance. Esses três são os meus favoritos por terem uma pegada gótica e enredos com assassinos em série. As cenas quentes são ótimas e as protagonistas não são passivas. Elas agem, têm personalidade e passam pela jornada de retomada da sexualidade. 

A Outra Metade de mim 
Nossas Almas Famintas 
Scarlet Devotion 

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